A 4 de novembro de 1966 o rio Arno galgou as margens e inundou Florença. A cheia de Florença de 1966 deixou 101 mortos, cerca de 14.000 obras de arte danificadas e entre três e quatro milhões de livros e manuscritos debaixo de lama. Hoje fazem-se 60 anos, e o que veio a seguir mudou para sempre a forma de restaurar e conservar património.
Resumo rápido
- DATA: 4 de novembro de 1966
- VÍTIMAS: 101 pessoas
- ALTURA DA ÁGUA: mais de 6,7 metros na zona de Santa Croce
- OBRAS DANIFICADAS: cerca de 14.000 obras de arte móveis
- LIVROS: entre 3 e 4 milhões de volumes e manuscritos
- LAMA: cerca de 600.000 toneladas de lama, pedras e água
- OS VOLUNTÁRIOS: os angeli del fango, os anjos da lama
O que aconteceu naquele 4 de novembro
Depois de dias de chuva, as margens do Mugnone cederam por volta das duas da manhã. Às quatro, os engenheiros libertaram um grande volume de água das barragens de Levane e La Penna, com receio de que a barragem cedesse: mais de 2.000 metros cúbicos por segundo desceram em direção a Florença e chegaram aos arredores a cerca de 60 quilómetros por hora. Muitos florentinos acordaram com a água dentro de casa. Só às oito da noite o nível começou a baixar.
No bairro de Santa Croce, o mais atingido, a água passou os 6,7 metros. E não era só água: a força da corrente rebentou os depósitos de gasóleo dos aquecimentos e o combustível misturou-se com a lama. Essa mistura gordurosa foi o que transformou um desastre numa catástrofe para o património, porque penetra na madeira, no papel e na pedra muito mais do que a água limpa.

O que ficou destruído
- Biblioteca Nacional Central: 1.300.000 peças afetadas, um terço da coleção.
- Arquivo do Estado: cerca de 40% do acervo.
- Gabinetto Vieusseux: os seus 250.000 volumes, todos.
- Arquivo da Opera del Duomo: 6.000 documentos e 55 manuscritos iluminados.
- Batistério: a água arrancou painéis das Portas do Paraíso de Ghiberti.
- Cidade: 5.000 famílias ficaram sem casa e 6.000 negócios fecharam.
O Crucifixo de Cimabue, o símbolo da cheia
Se há uma obra que resume o que aconteceu é o Crucifixo que Cimabue pintou para Santa Croce no final do século XIII: têmpera sobre madeira, 448 x 390 cm, construído com cinco tábuas principais e oito auxiliares. A água chegou ali à altura da auréola de Cristo e a obra perdeu cerca de 60% da pintura.
A equipa de Umberto Baldini e Ornella Casazza, no Laboratorio del Restauro de Florença, trabalhou dez anos nela. A tábua voltou a ser exposta em 1976 e hoje pode ver-se no Museo dell Opera di Santa Croce. A obra não foi repintada: optou-se por uma reintegração que permite distinguir o original do reconstruído, um critério que fez escola.
Os anjos da lama
Chegaram a Florença milhares de voluntários, sobretudo estudantes, italianos e estrangeiros. Entraram nas caves inundadas da Biblioteca Nacional para tirar livros encharcados, em cadeias humanas dentro da lama. Ficaram conhecidos como angeli del fango, os anjos da lama.
O que a catástrofe ensinou sobre conservação
A emergência obrigou a inventar no momento, e muito do que hoje é rotina num atelier de restauro nasceu ou consolidou-se naqueles meses:
- Papel japonês sobre a pintura. Para fixar as camadas que levantavam aplicou-se papel de amoreira e papel japonês, que segura sem arrancar quando é retirado. É o mesmo material que hoje se usa em reforços e reparações de papel: tens papéis japoneses para belas artes em várias gramagens.
- Secagem controlada com mata-borrão. Os livros foram intercalados folha a folha com papel mata-borrão e secos em fornos de tabaco, celeiros e secadores improvisados. Uma equipa chegava a tratar entre 70 e 100 livros por dia. Os papéis mata-borrão e de protecção continuam a ser a primeira ferramenta perante uma obra molhada.
- Solventes aplicados através de tissu. O gasóleo foi retirado das pinturas com solvente aplicado sobre papel japonês, usando pó de talco como absorvente.
- Conservação por etapas e desacidificação em massa. Dois conceitos nascidos da urgência que depois se espalharam por instituições de todo o mundo.
- Frescos com túneis. Abriram-se galerias estreitas sob as paredes, com aquecedores, para puxar a humidade para baixo.
- Um atelier no Jardim de Boboli. Na Limonaia trataram-se mais de 200 pinturas sobre madeira, com redução gradual da humidade e nistatina contra o bolor.
Porque é que ainda se recorda 60 anos depois
Porque foi o momento em que a conservação do património passou de ofício artesanal e local a disciplina com método, protocolos de emergência e cooperação internacional. E porque deixou uma lição incómoda: o património não se perde só em guerras ou incêndios, também numa noite de chuva e com um rio que cresce.
Perguntas frequentes sobre a cheia de Florença de 1966
Quando foi a cheia de Florença?
A 4 de novembro de 1966. O Arno galgou as margens após vários dias de chuva intensa e a água só começou a baixar às oito da noite desse mesmo dia.
Quantas obras de arte ficaram danificadas?
Cerca de 14.000 obras de arte móveis, além de três a quatro milhões de livros e manuscritos. Só a Biblioteca Nacional Central viu 1.300.000 peças afetadas, um terço da coleção.
O que aconteceu ao Crucifixo de Cimabue?
A água chegou em Santa Croce à altura da auréola de Cristo e a obra perdeu cerca de 60% da pintura. Uma equipa dirigida por Umberto Baldini e Ornella Casazza restaurou-a durante dez anos e voltou a ser exposta em 1976.
Quem foram os anjos da lama?
Os milhares de voluntários, na maioria jovens italianos e estrangeiros, que chegaram a Florença para retirar lama e salvar livros e obras de arte. São conhecidos pelo nome italiano, angeli del fango.
Porque é que o gasóleo agravou os danos?
Porque a água rebentou os depósitos de gasóleo dos aquecimentos e o combustível misturou-se com a lama. Essa mistura gordurosa penetra no papel, na madeira e na pedra, e retirá-la exige solventes e absorventes, não apenas água.
Informação elaborada a partir de fontes públicas sobre a cheia de Florença de 1966 e o restauro do Crucifixo de Cimabue, consultadas a 2 de novembro de 2026.