{"id":19868,"date":"2026-11-04T09:00:00","date_gmt":"2026-11-04T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/totenart.pt\/blog\/?p=19868"},"modified":"2026-11-02T14:40:03","modified_gmt":"2026-11-02T13:40:03","slug":"cheia-de-florenca-1966","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/totenart.pt\/blog\/noticias\/cheia-de-florenca-1966\/","title":{"rendered":"60 anos da cheia de Floren\u00e7a de 1966"},"content":{"rendered":"<p>A 4 de novembro de 1966 o rio Arno galgou as margens e inundou Floren\u00e7a. A <strong>cheia de Floren\u00e7a de 1966<\/strong> deixou 101 mortos, cerca de 14.000 obras de arte danificadas e entre tr\u00eas e quatro milh\u00f5es de livros e manuscritos debaixo de lama. Hoje fazem-se 60 anos, e o que veio a seguir mudou para sempre a forma de restaurar e conservar patrim\u00f3nio.<\/p>\n<p><strong>Resumo r\u00e1pido<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><strong>DATA:<\/strong> 4 de novembro de 1966<\/li>\n<li><strong>V\u00cdTIMAS:<\/strong> 101 pessoas<\/li>\n<li><strong>ALTURA DA \u00c1GUA:<\/strong> mais de 6,7 metros na zona de Santa Croce<\/li>\n<li><strong>OBRAS DANIFICADAS:<\/strong> cerca de 14.000 obras de arte m\u00f3veis<\/li>\n<li><strong>LIVROS:<\/strong> entre 3 e 4 milh\u00f5es de volumes e manuscritos<\/li>\n<li><strong>LAMA:<\/strong> cerca de 600.000 toneladas de lama, pedras e \u00e1gua<\/li>\n<li><strong>OS VOLUNT\u00c1RIOS:<\/strong> os <em>angeli del fango<\/em>, os anjos da lama<\/li>\n<\/ul>\n<h2><span class=\"ez-toc-section\" id=\"O_que_aconteceu_naquele_4_de_novembro\"><\/span>O que aconteceu naquele 4 de novembro<span class=\"ez-toc-section-end\"><\/span><\/h2>\n<p>Depois de dias de chuva, as margens do Mugnone cederam por volta das duas da manh\u00e3. \u00c0s quatro, os engenheiros libertaram um grande volume de \u00e1gua das barragens de Levane e La Penna, com receio de que a barragem cedesse: mais de 2.000 metros c\u00fabicos por segundo desceram em dire\u00e7\u00e3o a Floren\u00e7a e chegaram aos arredores a cerca de 60 quil\u00f3metros por hora. Muitos florentinos acordaram com a \u00e1gua dentro de casa. S\u00f3 \u00e0s oito da noite o n\u00edvel come\u00e7ou a baixar.<\/p>\n<p>No bairro de Santa Croce, o mais atingido, a \u00e1gua passou os 6,7 metros. E n\u00e3o era s\u00f3 \u00e1gua: a for\u00e7a da corrente rebentou os dep\u00f3sitos de gas\u00f3leo dos aquecimentos e o combust\u00edvel misturou-se com a lama. Essa mistura gordurosa foi o que transformou um desastre numa cat\u00e1strofe para o patrim\u00f3nio, porque penetra na madeira, no papel e na pedra muito mais do que a \u00e1gua limpa.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"674\" src=\"https:\/\/totenart.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/totenart-cheia-de-florenca-1966-arno.webp\" alt=\"O rio Arno junto \u00e0 Ponte Vecchio em Floren\u00e7a, cheia de Floren\u00e7a de 1966 \u2013 totenart\" class=\"wp-image-19870\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/totenart.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/totenart-cheia-de-florenca-1966-arno.webp 1200w, https:\/\/totenart.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/totenart-cheia-de-florenca-1966-arno-300x169.webp 300w, https:\/\/totenart.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/totenart-cheia-de-florenca-1966-arno-1024x575.webp 1024w, https:\/\/totenart.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/totenart-cheia-de-florenca-1966-arno-768x431.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>O Arno junto \u00e0 Ponte Vecchio. Em novembro de 1966 o rio passou os 6,7 metros no bairro de Santa Croce. Foto: Ali Nuredini \/ Unsplash.<\/figcaption><\/figure>\n<h2><span class=\"ez-toc-section\" id=\"O_que_ficou_destruido\"><\/span>O que ficou destru\u00eddo<span class=\"ez-toc-section-end\"><\/span><\/h2>\n<ul>\n<li><strong>Biblioteca Nacional Central:<\/strong> 1.300.000 pe\u00e7as afetadas, um ter\u00e7o da cole\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li><strong>Arquivo do Estado:<\/strong> cerca de 40% do acervo.<\/li>\n<li><strong>Gabinetto Vieusseux:<\/strong> os seus 250.000 volumes, todos.<\/li>\n<li><strong>Arquivo da Opera del Duomo:<\/strong> 6.000 documentos e 55 manuscritos iluminados.<\/li>\n<li><strong>Batist\u00e9rio:<\/strong> a \u00e1gua arrancou pain\u00e9is das Portas do Para\u00edso de Ghiberti.<\/li>\n<li><strong>Cidade:<\/strong> 5.000 fam\u00edlias ficaram sem casa e 6.000 neg\u00f3cios fecharam.<\/li>\n<\/ul>\n<h2><span class=\"ez-toc-section\" id=\"O_Crucifixo_de_Cimabue_o_simbolo_da_cheia\"><\/span>O Crucifixo de Cimabue, o s\u00edmbolo da cheia<span class=\"ez-toc-section-end\"><\/span><\/h2>\n<p>Se h\u00e1 uma obra que resume o que aconteceu \u00e9 o <em>Crucifixo<\/em> que Cimabue pintou para Santa Croce no final do s\u00e9culo XIII: t\u00eampera sobre madeira, 448 x 390 cm, constru\u00eddo com cinco t\u00e1buas principais e oito auxiliares. A \u00e1gua chegou ali \u00e0 altura da aur\u00e9ola de Cristo e a obra perdeu cerca de 60% da pintura.<\/p>\n<p>A equipa de Umberto Baldini e Ornella Casazza, no Laboratorio del Restauro de Floren\u00e7a, trabalhou dez anos nela. A t\u00e1bua voltou a ser exposta em 1976 e hoje pode ver-se no Museo dell Opera di Santa Croce. A obra n\u00e3o foi repintada: optou-se por uma reintegra\u00e7\u00e3o que permite distinguir o original do reconstru\u00eddo, um crit\u00e9rio que fez escola.<\/p>\n<h2><span class=\"ez-toc-section\" id=\"Os_anjos_da_lama\"><\/span>Os anjos da lama<span class=\"ez-toc-section-end\"><\/span><\/h2>\n<p>Chegaram a Floren\u00e7a milhares de volunt\u00e1rios, sobretudo estudantes, italianos e estrangeiros. Entraram nas caves inundadas da Biblioteca Nacional para tirar livros encharcados, em cadeias humanas dentro da lama. Ficaram conhecidos como <em>angeli del fango<\/em>, os anjos da lama.<\/p>\n<h2><span class=\"ez-toc-section\" id=\"O_que_a_catastrofe_ensinou_sobre_conservacao\"><\/span>O que a cat\u00e1strofe ensinou sobre conserva\u00e7\u00e3o<span class=\"ez-toc-section-end\"><\/span><\/h2>\n<p>A emerg\u00eancia obrigou a inventar no momento, e muito do que hoje \u00e9 rotina num atelier de restauro nasceu ou consolidou-se naqueles meses:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Papel japon\u00eas sobre a pintura.<\/strong> Para fixar as camadas que levantavam aplicou-se papel de amoreira e papel japon\u00eas, que segura sem arrancar quando \u00e9 retirado. \u00c9 o mesmo material que hoje se usa em refor\u00e7os e repara\u00e7\u00f5es de papel: tens <strong><a href=\"https:\/\/totenart.pt\/papeis\/papeis-japoneses-para-belas-artes?utm_source=post&amp;utm_medium=CTA&amp;utm_campaign=cheia-de-florenca-1966\">pap\u00e9is japoneses para belas artes<\/a><\/strong> em v\u00e1rias gramagens.<\/li>\n<li><strong>Secagem controlada com mata-borr\u00e3o.<\/strong> Os livros foram intercalados folha a folha com papel mata-borr\u00e3o e secos em fornos de tabaco, celeiros e secadores improvisados. Uma equipa chegava a tratar entre 70 e 100 livros por dia. Os <strong><a href=\"https:\/\/totenart.pt\/papeis\/papeis-de-secagem-e-de-proteccao?utm_source=post&amp;utm_medium=CTA&amp;utm_campaign=cheia-de-florenca-1966\">pap\u00e9is mata-borr\u00e3o e de protec\u00e7\u00e3o<\/a><\/strong> continuam a ser a primeira ferramenta perante uma obra molhada.<\/li>\n<li><strong>Solventes aplicados atrav\u00e9s de tissu.<\/strong> O gas\u00f3leo foi retirado das pinturas com solvente aplicado sobre papel japon\u00eas, usando p\u00f3 de talco como absorvente.<\/li>\n<li><strong>Conserva\u00e7\u00e3o por etapas e desacidifica\u00e7\u00e3o em massa.<\/strong> Dois conceitos nascidos da urg\u00eancia que depois se espalharam por institui\u00e7\u00f5es de todo o mundo.<\/li>\n<li><strong>Frescos com t\u00faneis.<\/strong> Abriram-se galerias estreitas sob as paredes, com aquecedores, para puxar a humidade para baixo.<\/li>\n<li><strong>Um atelier no Jardim de Boboli.<\/strong> Na Limonaia trataram-se mais de 200 pinturas sobre madeira, com redu\u00e7\u00e3o gradual da humidade e nistatina contra o bolor.<\/li>\n<\/ul>\n<h2><span class=\"ez-toc-section\" id=\"Porque_e_que_ainda_se_recorda_60_anos_depois\"><\/span>Porque \u00e9 que ainda se recorda 60 anos depois<span class=\"ez-toc-section-end\"><\/span><\/h2>\n<p>Porque foi o momento em que a conserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio passou de of\u00edcio artesanal e local a disciplina com m\u00e9todo, protocolos de emerg\u00eancia e coopera\u00e7\u00e3o internacional. E porque deixou uma li\u00e7\u00e3o inc\u00f3moda: o patrim\u00f3nio n\u00e3o se perde s\u00f3 em guerras ou inc\u00eandios, tamb\u00e9m numa noite de chuva e com um rio que cresce.<\/p>\n<h2><span class=\"ez-toc-section\" id=\"Perguntas_frequentes_sobre_a_cheia_de_Florenca_de_1966\"><\/span>Perguntas frequentes sobre a cheia de Floren\u00e7a de 1966<span class=\"ez-toc-section-end\"><\/span><\/h2>\n<h3><span class=\"ez-toc-section\" id=\"Quando_foi_a_cheia_de_Florenca\"><\/span>Quando foi a cheia de Floren\u00e7a?<span class=\"ez-toc-section-end\"><\/span><\/h3>\n<p>A 4 de novembro de 1966. O Arno galgou as margens ap\u00f3s v\u00e1rios dias de chuva intensa e a \u00e1gua s\u00f3 come\u00e7ou a baixar \u00e0s oito da noite desse mesmo dia.<\/p>\n<h3><span class=\"ez-toc-section\" id=\"Quantas_obras_de_arte_ficaram_danificadas\"><\/span>Quantas obras de arte ficaram danificadas?<span class=\"ez-toc-section-end\"><\/span><\/h3>\n<p>Cerca de 14.000 obras de arte m\u00f3veis, al\u00e9m de tr\u00eas a quatro milh\u00f5es de livros e manuscritos. S\u00f3 a Biblioteca Nacional Central viu 1.300.000 pe\u00e7as afetadas, um ter\u00e7o da cole\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><span class=\"ez-toc-section\" id=\"O_que_aconteceu_ao_Crucifixo_de_Cimabue\"><\/span>O que aconteceu ao Crucifixo de Cimabue?<span class=\"ez-toc-section-end\"><\/span><\/h3>\n<p>A \u00e1gua chegou em Santa Croce \u00e0 altura da aur\u00e9ola de Cristo e a obra perdeu cerca de 60% da pintura. Uma equipa dirigida por Umberto Baldini e Ornella Casazza restaurou-a durante dez anos e voltou a ser exposta em 1976.<\/p>\n<h3><span class=\"ez-toc-section\" id=\"Quem_foram_os_anjos_da_lama\"><\/span>Quem foram os anjos da lama?<span class=\"ez-toc-section-end\"><\/span><\/h3>\n<p>Os milhares de volunt\u00e1rios, na maioria jovens italianos e estrangeiros, que chegaram a Floren\u00e7a para retirar lama e salvar livros e obras de arte. S\u00e3o conhecidos pelo nome italiano, <em>angeli del fango<\/em>.<\/p>\n<h3><span class=\"ez-toc-section\" id=\"Porque_e_que_o_gasoleo_agravou_os_danos\"><\/span>Porque \u00e9 que o gas\u00f3leo agravou os danos?<span class=\"ez-toc-section-end\"><\/span><\/h3>\n<p>Porque a \u00e1gua rebentou os dep\u00f3sitos de gas\u00f3leo dos aquecimentos e o combust\u00edvel misturou-se com a lama. Essa mistura gordurosa penetra no papel, na madeira e na pedra, e retir\u00e1-la exige solventes e absorventes, n\u00e3o apenas \u00e1gua.<\/p>\n<p><em>Informa\u00e7\u00e3o elaborada a partir de fontes p\u00fablicas sobre a cheia de Floren\u00e7a de 1966 e o restauro do Crucifixo de Cimabue, consultadas a 2 de novembro de 2026.<\/em><\/p>\n<p><script type=\"application\/ld+json\">{\"@context\": \"https:\/\/schema.org\", \"@type\": \"FAQPage\", \"mainEntity\": [{\"@type\": \"Question\", \"name\": \"Quando foi a cheia de Floren\u00e7a?\", \"acceptedAnswer\": {\"@type\": \"Answer\", \"text\": \"A 4 de novembro de 1966. 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